28/04/2026

Como entregar resultados acima de R$ 2.000/ha na atividade de cria 

Otávio Viana

Quando analisamos os dados do benchmarking Inttegra, observamos que a cria vem sendo a atividade com menor desempenho financeiro, mesmo olhando para as fazendas mais rentáveis. 

Segundo o benchmarking Inttegra, na safra 24–25, apenas 0,4% das fazendas de cria conseguiram entregar resultados acima de R$ 2.000 por hectare. Em contrapartida, na recria e engorda, esse percentual salta para cerca de 15% das fazendas

Ou seja, mesmo entre as propriedades mais eficientes, a cria apresenta uma distância relevante em relação aos demais sistemas produtivos.  

Esse dado não deve ser interpretado como uma limitação natural da atividade, mas sim como um sinal claro de que o modelo tradicional de produção de bezerros precisa evoluir. Afinal, não existe fazenda de recria ou de engorda sem antes existir a cria. 

O problema central da cria tradicional 

Historicamente, a cria foi conduzida com foco em indicadores isolados, como taxa de prenhez ou a genética das matrizes. Embora importantes, esses indicadores, sozinhos, não garantem resultado econômico

Tradicionalmente, a cria é, o sistema que apresenta as maiores margens da pecuária, porém com baixo volume de produção de arrobas por hectare. Esse desequilíbrio faz com que, mesmo com boa margem, o resultado por área seja limitado. Para potencializar o resultado é necessário aumentarmos a produção de arrobas por hectare, mantendo um bom ganho médio diário (GMD) e, principalmente, elevando a lotação de forma sustentável

As contas para uma cria acima de R$ 2.000/ha 

Como solução para uma cria mais rentável e sustentável, e que entregue mais de R$ 2.000/ha, a Inttegra desenvolveu um método onde isto é tecnicamente possível, trazendo resultados em fazendas que já adoram este método – Super Cria Regenerativa. 

Premissas produtivas 

Para atingir a Super Cria Regenerativa, com resultado acima R$ 2.000/ha precisamos começar pelas seguintes premissas: 

  • Entourar 3 matrizes por hectare 
  • Atingir 75% de taxa de desmame 
  • Desmamar 2,2 bezerros por hectare 

Comercialização 

O faturamento da fazenda não vem apenas do bezerro macho, mas da venda de diferentes categorias, incluindo: 

  • Bezerros machos acima de 220 kg 
  • Novilhas com 14 @ e vacas descarte, ou melhor vacas gordas, com 17@, com média 15 arrobas por fêmea 

São pesos mais elevados e por isso muitas vezes as matrizes precisarão ser terminadas antes da venda.   

Faturamento 

Para os cálculos, utilizaremos valores médios históricos: 

  • Bezerro: R$ 11/kg → ~R$ 2.600 
  • Fêmeas: R$ 253/@ → ~R$ 3.800 
  • Valor médio ponderado: R$ 3.200 por animal 

A meta deve ser comercializar 2,2 animais por hectare entre todas as categorias, considerando R$3.200 por animal, o faturamento de R$ 7.000 /ha. 

Estrutura de custos e resultado 

A referência de custo utilizada nesse tipo de sistema gira em torno de: 

  • R$ 110 por matriz entourada por mês 

Com 3 matrizes entouradas por hectare

  • ≈ R$ 4.000 de desembolso anual por hectare 

Resultado 

  • Receita: R$ 7.000/ha 
  • Desembolso: R$ 4.000/ha 

Resultado líquido próximo de R$ 3.000/ha, ou, de forma conservadora, acima de R$ 2.000/ha. 

O principal desafio: aumentar volume mantendo a margem 

Chegar a esse nível de resultado não é trivial. O maior desafio é atingir e sustentar altas lotações sem perder a margem da operação

Altas doses de adubação ou níveis elevados de suplementação até permitem aumentar a lotação, no entanto: 

  • elevam muito o desembolso, 
  • aumentam o risco da operação, 
  • e podem comprometer a viabilidade econômica do projeto. 

É nesse ponto que as práticas regenerativas ganham protagonismo. O uso de cercas, cochos e bebedouros móveis permite controlar melhor a colheita da forragem e promovem uma distribuição mais homogênea das fazes e urina, que passam a atuar como fonte de fertilização do solo. Em sistemas convencionais, essa distribuição tende a ser desuniforme, ficando concentrada em áreas próximas às estruturas fixas de cocho e bebedouro, o que reduz o aproveitamento dos dejetos.  

Além disso, o cuidado com a microbiologia do solo torna-se fundamental. Com um solo biologicamente ativo e equilibrado, o sistema passa a produzir mais forragem com menor dependência de insumos externos, o que ajuda a sustentar a margem mesmo em cenários desafiadores. 

Conclusão 

Com mudança de mentalidade, aumento de produtividade, gestão de custos e uso inteligente da biologia, a cria deixa de ser o elo fraco da cadeia e passa a ser a base de uma pecuária mais rentável, resiliente e sustentável

Se hoje menos de 1% das fazendas de cria conseguem ultrapassar R$ 2.000/ha, isso não significa que o teto da atividade seja baixo, mas sim que o modelo predominante ainda é pouco eficiente

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Sobre a Inttegra

A Inttegra surgiu da experiência prática de Antonio Chaker, que em 1997 percebeu que apenas anotar números não transformava fazendas. Entre 2002 e 2015, ele desenvolveu um método que une números, estratégia e pessoas. Em 2015, o Instituto foi oficializado com o objetivo de aplicar essa gestão integrada para gerar resultados sustentáveis e consistentes no agronegócio.

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