Antonio Chaker
Fazendas têm uma habilidade enorme de nos colocar em uma posição que gosto de chamar de “lama” do operacional. É aquele estado em que o gestor está tão submerso nas demandas do dia a dia que perde completamente a capacidade de enxergar e conduzir o negócio de cima. A lama não avisa quando chega. Ela se instala aos poucos, tarefa por tarefa, urgência por urgência. É gastar duas horas dirigindo até a cidade para buscar uma peça que poderia ter sido antecipada. É estar pessoalmente no curral em todo período de manejo, porque a equipe não tem protocolo para executar sem supervisão. É passar horas no telefone caçando um retentor enquanto o trator parado sangra produtividade. É correr para buscar uma seringa nova porque a da fazenda quebrou no meio da vermifugação. É aprovar pessoalmente a compra de R$ 90. É resolver no WhatsApp às 22h um problema que deveria ter um responsável definido.
O perigo dessa “lama” não é o esforço. O pecuarista brasileiro está acostumado a trabalhar duro. O perigo é a ilusão de produtividade que ela cria. Quem está na lama se sente ocupado o tempo todo, útil o tempo todo, mas ocupado e produtivo são coisas muito diferentes. Enquanto o gestor resolve o problema do dia, o planejamento do próximo ciclo, a análise do desempenho econômico da fazenda e as negociações importantes ficam esperando. E o que espera na fazenda geralmente vira prejuízo.
Existe um conceito que ajuda a nomear esse problema com precisão: a diferença entre trabalhar IN e trabalhar ON na fazenda. Trabalhar in é trabalhar dentro, exatamente o que descrevi na lama. Você está executando, apagando incêndio, resolvendo o que o dia impõe. Trabalhar on é trabalhar sobre o negócio. É quando você senta para analisar se a fazenda está entregando os 4% ao ano sobre o valor do patrimônio que deveria entregar ou se o rebanho está performando perto dos 20% de retorno. É quando você planeja um programa de remuneração estratégica para a equipe ou estrutura um processo seletivo capaz de atrair 10 candidatos qualificados antes de abrir uma vaga, em vez de contratar o primeiro que aparecer na porteira.
Braço ou cabeça?
O pecuarista que fica só in não está cumprindo sua função de gestor. Está sendo mais um braço da operação do que a cabeça do negócio. Mas também aquele que fica somente on perde, em pouco tempo, a sensibilidade do pó da estrada e começa a tomar decisões desconectadas da realidade. O equilíbrio inteligente é em torno de 70% on e 30% in. Haverá momentos que vão demandar 100% in: um plantio, uma emergência sanitária, uma seca severa. Esses momentos existem e são legítimos. O que não pode acontecer é normalizá-los.
Para conquistar esse equilíbrio, a prática que mais funciona é criar duas rotinas fixas de cadência. A rotina semanal acontece na sexta ou no sábado e tem dois movimentos: fechar a semana, aquilo que foi planejado, o que ocorreu e o que ficou pendente; e abrir a próxima, antecipando suprimentos, manutenções e escala. O que entra nessa reunião não vira urgência no meio da semana. Essa rotina transforma o gestor de apagador de incêndio em condutor do ritmo da operação.
A rotina mensal acontece sempre na última quarta-feira do mês. É o momento de fechar os indicadores produtivos e financeiros e abrir o mês seguinte com clareza. Em janeiro, abril, julho e outubro, essa reunião ganha um peso extra: além do mês, o gestor olha para o trimestre. Em julho, a lente se abre ainda mais: ele fecha a safra que encerrou e abre formalmente a próxima. Essas cadências (semanal, mensal, trimestral e safra) são o esqueleto de uma gestão que equilibra o in e o on. Sem elas, o dia a dia sempre vai vencer.
O on não é luxo
A “lama” do operacional não é um defeito de caráter; é uma armadilha estrutural que a fazenda impõe a qualquer gestor que não construiu sistemas para resistir a ela. A virada começa quando ele para de tratar o on como luxo e passa a tratá-lo como obrigação. A fazenda que você quer ter no futuro vai ser construída nas horas em que você conseguir sair do operacional e olhar para frente.
Essas horas não aparecem sozinhas. Elas precisam ser protegidas com a mesma seriedade com que você protege qualquer outro recurso escasso de seu negócio. Comece pela reunião semanal. Feche bem a semana, abra bem a próxima. Aos poucos o ritmo se instala, a equipe ganha autonomia, as urgências diminuem. E você começa a ter tempo para fazer o que só você pode fazer: pensar no futuro da fazenda.