Antonio Chaker, Diretor Inttegra
Em 1969, minha família cruzou a fronteira rumo ao Paraguai. Terra boa, palmito e madeira era o que buscávamos. A estratégia natural da época: abrir fronteira, formar a fazenda, construir do zero. Depois da abertura e do ciclo da madeira, chegamos na pecuária. E foi aí que o Oscalino entrou na nossa história. Ele trabalhou com meu avô, com meu pai e comigo. Não era um funcionário antigo. Era uma pessoa que atravessou gerações dentro da nossa família, que ajudou a abrir a fazenda, que a viu mudar de gestor duas vezes (para meu pai e para mim), que conheceu cada palmo de terra, cada cano enterrado, cada ano bom de chuva e cada seca pesada.
Foi ele quem me ensinou a arrear o cavalo quando eu era criança. Com ele, eu entendi o que significava formar a tropa, boi “palpando”, vaca “maninha”, bezerro “guacho”, peão “bardoso” e por aí vai! Quando assumi a operação, o Oscalino estava lá: sólido, presente, comprometido como poucos que já vi na vida. E foi exatamente por isso que demorei mais do que deveria para enxergar o problema.
Como Avançar?
A fazenda precisava avançar. Não era capricho, era sobrevivência. O sistema de pastejo contínuo estava ultrapassado, a cerca elétrica era necessária para rotacionar com eficiência, e os funcionários mais jovens precisavam de rotinas claras, de reuniões de abertura e fechamento de semana. Coloquei o Oscalino à frente de tudo isso, porque confiava, porque respeitava, e porque ele merecia essa chance.
Os meses passaram. O manejo de pastagem em alto nível virou assunto de reunião, mas nunca virou realidade. As reuniões morreram sem cerimônia. A tensão com os mais jovens só aumentou. Ele se dedicava, trabalhava muito, mas o resultado não vinha.
Foi quando entendi uma das distinções mais difíceis da gestão: comprometimento e competência não são a mesma coisa. Comprometimento é disposição, presença, lealdade; é o homem que aparece no domingo preocupado com o fogo no vizinho sem você precisar ligar. Competência é outra coisa. É capacidade para entregar o que o momento exige. É implementar o novo quando o novo assusta. É liderar gente de outra geração sem travar. Você pode ter os dois juntos, é o ideal, mas, quando tem um sem o outro, o negócio paga a conta em silêncio.
“Com indicadores, a conversa deixa de ser emocional; foca no resultado esperado contra o resultado entregue”
Dilema do Capitão
No futebol, todo técnico já enfrentou o dilema do capitão: o jogador vestiu a camisa por 10 anos, é ídolo da torcida, mas perdeu a velocidade que o jogo exige. Mantê-lo em campo não é homenagem, é prejuízo. O bom técnico honra a história sem comprometer o resultado. Na fazenda, é igual. Por muito tempo operei com uma crença que nunca verbalizei: a fazenda era uma família. E em família, você não questiona quem ajudou a construir.
Essa crença tem humanidade e tem raiz, mas também tem um custo que poucos calculam. Quando você trata a empresa como família, toma decisões com o coração em situações que pedem a cabeça. Mantém pessoas em postos que não conseguem mais ocupar. Evita conversas difíceis porque doem. E a operação fica refém do tamanho que essas pessoas conseguem sustentar. A fazenda não cresce além da capacidade de quem a lidera no dia a dia.
Papel da Métrica
E aqui entra um ponto que pouca gente conecta: sem métricas, essa conversa nem acontece. Como explicar para o Oscalino que algo precisa mudar, se não tem nada concreto para mostrar? Sem número, sem meta, sem indicador, a conversa vira opinião, vira mágoa. Com base nos dados do Inttegra, posso afirmar que as fazendas que entregam mais de 4% sobre o valor da terra são justamente as que constroem clareza com números: GMD, custo por arroba produzida, resultado por hectare, previsto contra realizado. Quando esses indicadores existem, a decisão deixa de ser emocional. Não é mais eu contra o Oscalino. É o resultado esperado contra o resultado entregue.
As pessoas que levam a fazenda até um patamar não são, necessariamente, as que vão levá-la ao próximo. Isso não é ingratidão, é realidade. O jogo muda e nem todos mudam junto. A saída inicial não é demitir. É criar clareza, ter a conversa com respeito e dados, e encontrar uma transição digna para onde a pessoa realmente brilhe. Comprometimento você valoriza, competência você exige e resultado você premia. Mas quando eles não andam juntos, o pior que você pode fazer é fingir que está tudo bem. Olhe para sua equipe agora. Você sabe quem é o seu Oscalino. A conversa que você está adiando é a mesma que está travando sua fazenda. Tenha os números, tenha respeito e tenha coragem.
DBO maio 2026.