Antonio Chaker, Diretor Inttegra
Qual é o maior desafio da pecuária hoje?
Nas palestras que faço em eventos, costumo iniciar com uma pergunta simples à plateia: “Qual é, hoje, o maior desafio da pecuária brasileira?” A resposta quase sempre vem de forma imediata, antes mesmo que a reflexão avance: mão de obra. Não é uma resposta isolada. É uma percepção recorrente, repetida em diferentes regiões, perfis de fazenda e sistemas de produção. A reclamação é quase sempre a mesma: não tem gente para contratar; o jovem não quer trabalhar; ninguém quer morar na fazenda; ninguém sabe mais trocar o pneu de um trator. Escuto isso no Pantanal, no Cerrado, no Sul, no Norte, em fazenda grande e em fazenda pequena. O tom muda pouco. É sempre uma mistura de lamento com saudade de um tempo que não volta mais.
Por que o profissional “antigo” está desaparecendo?
Aí é que começa o problema. Um dia experimentei uma coisa que ainda não tinha vivido: ter haters (aquelas pessoas que falam mal de você na internet). Pegaram um corte de uma palestra minha (fora de contexto, claro) e me encheram de pedrada na internet. O motivo era simples: eu disse que aquele profissional antigo, experiente, que tirava gado da mata, levava até o curral sem corredor e fazia tudo acontecer na base da habilidade, praticamente não existe mais.
A conclusão de que esse profissional não existe é óbvia: o gado não pode mais entrar na mata, as fazendas devem sempre ter corredores, o quadriciclo é mais fácil de dominar do que a mula. Simples assim. Me chamaram de consultor de sofá. Disseram que eu não conhecia a realidade e que estava sonhando. Mas eu não estava falando de sonho, eu estava falando de gestão. Quando a habilidade disponível muda, o sistema precisa mudar junto. Não adianta cobrar da nova geração a mesma competência de um mundo que deixou de existir. A pergunta que quase ninguém quer fazer é esta: será que falta mão de obra ou falta reconhecer que as gerações mudaram? Porque mudaram. E muito.
O choque de realidades e o que realmente motiva os mais jovens
Frases como “eu, na sua idade…” perderam completamente a força. O mundo em que você tinha aquela idade não existe mais. Quem cobra do filho a infância que teve está comparando duas realidades diferentes. E isso é injusto com os dois lados. A nova geração não acorda às quatro da manhã só por dinheiro. Ela acorda por um projeto que faça sentido. Trabalha por algo que valha a pena. Quer aprender, crescer, usar tecnologia, resolver problemas de verdade e enxergar futuro no que está fazendo.
Propósito inspirador e a construção da pecuária do futuro
Nestes anos visitando fazendas Brasil afora, vi pouca gente boa sair apenas por salário. Normalmente sai por falta de sentido. Sai por falta de liderança. Sai porque não vê caminho. Sai porque a fazenda chama para ocupar uma vaga, mas não convida para construir alguma coisa maior. Esse é o ponto. Precisamos contratar para um propósito inspirador, não apenas para “a vaga da fazenda”. Muita gente pode largar outro emprego para ajudar a construir a pecuária do futuro. A função pode até ser parecida, mas o convite deve ser outro. E também precisamos repensar os processos. Tudo precisa ficar simples, porque o simples se ensina rápido. E o que se ensina rápido qualquer pessoa aprende.
O que o campo pode aprender com o McDonald’s?
Modernizar e simplificar não é tarefa de um setor, é papel de todos. E o melhor é que isso não serve apenas para atrair gente. Serve para aumentar produtividade, reduzir custo e diminuir dependência de pessoas insubstituíveis. Olhe o McDonald’s. A empresa trabalha com jovens, muita rotatividade e tempo médio de casa baixo. Mesmo assim, entrega padrão no mundo inteiro. Como consegue? Com processo simples, treinável e repetível. A pessoa muda. O resultado continua.
Gestão de verdade x A dependência do “Zé”
Na fazenda, muitas vezes fazemos o contrário. Criamos sistemas em que só o Zé sabe fazer, só o Zé sabe onde está, só o Zé sabe como resolver. Aí, quando o Zé adoece, a porteira trava. Isso não é gestão, é dependência disfarçada de experiência. A nova pecuária vai ser feita com sensor, quadriciclo, drone, software, inteligência artificial e robô. E adivinhe quem já tem familiaridade com esse mundo? Justamente a geração que muita gente diz que não quer trabalhar.
Modernize antes de cobrar
Ela quer trabalhar. Só não quer trabalhar do jeito antigo. Dê a ela uma tela, um dado em tempo real, um problema concreto para resolver e um líder que dê direção. Depois observe o que acontece. Por isso, o conselho é direto: antes de sair contratando, modernize a fazenda. Prepare o terreno para a nova geração, em vez de tentar forçá-la a caber no terreno velho. O problema nunca foi apenas a falta de gente. O problema é a falta de coragem de mudar a fazenda antes de cobrar das pessoas.
DBO Julho 2026.