Antonio Chaker, Diretor Inttegra
Olhando a arroba do boi gordo nos Estados Unidos acima de R$ 550/@ (US$ 110), podemos até pensar: “Que sonho vender por esse preço”. Só que esse sonho nasceu de um pesadelo. O rebanho norte-americano chegou ao menor nível em 75 anos. Falta boi para abastecer os frigoríficos e o consumidor já encontra carne perto de US$ 10 por libra no varejo. O preço recorde não veio de uma pecuária forte. Veio da escassez.
Essa crise foi construída ao longo de vários anos. Desde 2019, os EUA perderam mais de 4 milhões de vacas. A seca atingiu importantes regiões produtoras, reduziu a oferta de pasto e aumentou o custo de manutenção das matrizes. Para diminuir o prejuízo e aliviar o caixa, muitos produtores reduziram o rebanho. Durante algum tempo, o elevado abate de fêmeas ainda ajudou a sustentar a produção de carne. Mas havia um problema nessa conta: não era aumento de produção, era liquidação do estoque produtivo. É como uma indústria que mantém o faturamento vendendo suas próprias máquinas.
A consequência apareceu alguns anos depois. Em 2025, os EUA tinham apenas 27,6 milhões de vacas de corte e a safra de bezerros foi a menor desde 1941, segundo o USDA. Com menos vacas, nasceram menos bezerros. Depois faltaram animais para a recria, para os confinamentos e, finalmente, para os frigoríficos. A situação ficou ainda mais complicada com o avanço da bicheira em direção à fronteira americana e as restrições à entrada de bovinos do México, uma fonte importante de reposição para os Estados Unidos.
Quem olha apenas para a arroba de US$ 110 pode enxergar uma grande oportunidade. Quem olha a cadeia pecuária encontra produtores que venderam suas matrizes na baixa e agora precisam pagar muito caro por novilhas para reconstruir o rebanho. E isso não será resolvido rapidamente. Entre reter uma novilha, emprenhá-la, produzir um bezerro e levar esse animal ao abate, passam-se mais de 20 meses.
Alerta para o Brasil
O Brasil precisa prestar atenção nessa história. Ano passado, o abate de fêmeas atingiu o maior nível da série histórica do IBGE e representou quase 47% de todos os bovinos abatidos. Pela primeira vez em um trimestre abatemos mais fêmeas do que machos. Os dados mais recentes indicam redução desse movimento, mas milhões de matrizes já deixaram o sistema produtivo. Isso não significa que repetiremos a crise americana. Temos um rebanho superior a 230 milhões de cabeças, uma pecuária mais flexível e enorme espaço para aumentar a produtividade. Mas o mecanismo é exatamente o mesmo: vaca abatida hoje é bezerro que não nascerá amanhã.
Na minha visão, a melhor maneira de evitar uma crise de oferta é tornar a cria verdadeiramente lucrativa. Os dados históricos da Inttegra, oriundos de mais de 800 fazendas produtoras de bezerros, mostram um resultado médio de apenas R$ 187 por hectare ao ano na cria. É muito pouco para uma atividade que exige terra, capital, gente e ainda imobiliza recursos por tanto tempo. Com esse resultado, basta um aperto de caixa ou uma melhora no preço da vaca para a matriz seguir para o frigorífico.
A cria, porém, pode superar R$ 2.000 por hectare ao ano. Para isso, precisa deixar de ser conduzida apenas como tradição e passar a ser tratada como negócio. Três números ajudam a mostrar esse caminho: taxa de desmama acima de 72%, produção superior a 1 bezerro(a) desmamado(a) por hectare e desembolso mensal por matriz abaixo de um terço do valor da arroba do boi gordo (se a arroba estiver R$ 300, o desembolso por matriz/mês não deve superar R$ 100).
Cria deve dar lucro
Não adianta aumentar a lotação sem produzir comida. Também não adianta emprenhar mais vacas e perder bezerros antes da desmama. Produzir mais gastando ainda mais não resolve o problema. O resultado vem do equilíbrio entre reprodução, pastagem, nutrição, sanidade, pessoas e caixa. Quando a cria dá lucro, o pecuarista não precisa vender vacas para fechar as contas. Ele retém as melhores fêmeas, investe em produtividade e aumenta a oferta de bezerros. Ganha a fazenda e ganha toda a cadeia.
A grande lição dos Estados Unidos não é que devemos sonhar com uma arroba de US$ 110. É que precisamos entender o preço que eles pagaram para chegar até ela. Toda crise de oferta começa muito antes de faltar boi no frigorífico. Começa quando deixa de valer a pena manter a vaca no pasto.
DBO agosto 2026