Antonio Chaker, Diretor Inttegra
A pecuária de corte brasileira vive um momento de profunda transformação. Longe de ser uma atividade simples, operar uma fazenda hoje exige a habilidade de gerenciar um sistema vivo e complexo, onde solo, capim, clima e animais interagem de forma contínua e plurianual.
Diante desse cenário repleto de variáveis, o sucesso de uma propriedade rural já não pode depender da sorte ou do acaso. A pecuária de alto desempenho é, em sua essência, uma atividade altamente responsiva a processos estruturados e à gestão profissional. Para que um negócio prospere e gere riqueza de forma sustentável, o produtor precisa assumir as rédeas do seu resultado. É hora de deixar de lado as queixas sobre o clima ou as oscilações de mercado e assumir a postura de um verdadeiro líder gestor.
O Tripé da Pecuária de Sucesso: Gente, Projeto e Execução
Para direcionar qualquer fazenda rumo à lucratividade, existe uma resposta clara ao clássico questionamento sobre os fatores mais importantes da atividade: gente, projeto e execução em alto nível.
- Gente (90% do sucesso): O maior fator limitante da pecuária nacional não está nas intempéries climáticas, mas na ausência de uma liderança empreendedora que realmente acredite nas pessoas e na tecnologia. Assumir a responsabilidade é o primeiro passo para mudar a realidade. É por isso que vemos fazendas vizinhas, operando sob o mesmo clima e mercado, apresentando resultados financeiros drasticamente opostos.
- Projeto (A clareza de direção): Ter um projeto consistente significa saber exatamente para onde a fazenda está indo. Isso envolve desenhar o sistema de produção, estruturar o plano de negócios e definir o orçamento. Além disso, exige rotinas de monitoramento rigorosas, reuniões semanais, mensais, trimestrais e anuais, para garantir que o que foi planejado está, de fato, acontecendo.
- Execução em Alto Nível (A eficiência operacional): É a busca incansável por fazer a coisa certa, na hora certa. O futuro da pecuária será muito mais voltado aos processos do que aos insumos. Os insumos têm o seu valor, mas é a excelência da operação que garante que cada centavo investido retorne como lucro no bolso do produtor.
As Três Camadas de Indicadores: O que não se mede, não se gerencia
A tomada de decisão qualificada depende do acompanhamento sistemático de métricas. Na Inttegra, organizamos esses indicadores em três camadas essenciais para a saúde do negócio:
- Linha de Baixo (Estratégica): É o foco no retorno dos ativos. O produtor deve buscar uma rentabilidade de 3% a 9% sobre o valor total da propriedade e, no mínimo, 20% sobre o valor do rebanho. Quando o rebanho gera 20% de retorno real (acima da inflação), a pecuária se consolida como um dos investimentos mais atraentes e seguros do mercado.
- Linha do Meio (Tática): É o que sustenta os resultados econômicos. Aqui, observamos quatro indicadores centrais: o Ganho Médio Diário (GMD) global que explica mais de 55% dos resultados da fazenda, o desembolso por cabeça/mês, a taxa de lotação (UA/ha) e o valor de venda.
- Linha do Olho (Operacional): São os indicadores visuais que refletem o dia a dia e a saúde da fazenda, como o escore de condição corporal, o escore de fezes, a altura e condição do pasto, e a homogeneidade dos lotes. Quando a “linha do meio” é bem executada, a “linha do olho” naturalmente reflete essa organização.
O Novo Padrão Climático e as Estratégias de Defesa
Se há uma certeza hoje, é que o novo padrão climático é caracterizado pela ausência de padrões históricos estáveis. Diante de regimes de chuva cada vez mais imprevisíveis, o pecuarista precisa de estratégias robustas para mitigar riscos.
Existem “dois remédios” fundamentais para o produtor dormir tranquilo: dinheiro em caixa e comida guardada.
A recomendação atual é manter uma reserva estratégica de uma tonelada de matéria seca por Unidade Animal (UA). Seja por meio de silagem, feno ou coprodutos, esse estoque é vital para blindar a fazenda durante a crítica transição da seca para as águas (outubro a dezembro). É exatamente nessa janela que muitas propriedades degradam seus pastos por falta de suplementação, comprometendo o rebrote do capim e destruindo a rentabilidade de todo o ciclo seguinte.
A Decisão está em Suas Mãos
A pecuária de corte brasileira possui um potencial de crescimento gigantesco. Como costumo dizer, o produtor tem hoje “a faca, o queijo e a goiabada na mão”.
O sucesso de cada propriedade depende unicamente da decisão de profissionalizar a gestão, estabelecer processos claros, treinar a equipe e assumir o controle absoluto dos resultados. Ao implementar uma metodologia sólida de mensuração e controle, a fazenda deixa de ser apenas uma herança passiva para se transformar naquilo que nasceu para ser: uma empresa agropecuária de alta performance, altamente lucrativa e sustentável.