Gustavo Haruo, Analista de Resultado Inttegra
É comum ouvir que o agricultor é mais profissionalizado, mais tecnológico e mais orientado por indicadores do que o pecuarista. Essa diferença está diretamente relacionada à história de cada atividade.
A pecuária como reserva de valor
Durante grande parte da história recente do Brasil, a pecuária de corte foi uma atividade que funcionava como “reserva de valor”. Em muitas regiões, comprar uma fazenda, colocar gado e esperar alguns anos era suficiente para gerar um excelente retorno sobre o patrimônio.
Além disso, as margens da atividade eram relativamente confortáveis. Havia espaço para ineficiências produtivas, desperdícios e decisões pouco embasadas sem que isso necessariamente comprometesse a sobrevivência do negócio. Quem nunca ouviu os mais antigos contando que terminavam boi com 5-6 anos, hoje o que é inviável na época era sim muito lucrativo.
Em outras palavras, muitos sistemas de produção eram lucrativos apesar da gestão, e não por causa dela.
Nesse ambiente, o foco do pecuarista naturalmente se concentrou em aspectos operacionais: manejo do rebanho, genética, pastagens e expansão da área. O controle detalhado dos números raramente era uma questão de sobrevivência.
O caminho de alto risco da agricultura
A agricultura percorreu um caminho diferente.
Historicamente, o agricultor sempre conviveu com riscos elevados. O ciclo produtivo é curto, os investimentos são altos, o clima pode comprometer uma safra inteira e os preços das commodities variam constantemente. Em um negócio assim, não conhecer os custos de produção ou não acompanhar indicadores econômicos frequentemente significava prejuízo imediato.
Por isso, a agricultura foi forçada a desenvolver ferramentas de gestão mais cedo. Controle de custos, orçamento, planejamento financeiro, análise de rentabilidade por talhão e tomada de decisão baseada em números deixaram de ser diferenciais e passaram a ser requisitos mínimos para permanecer na atividade.
Quem não acompanhava os indicadores simplesmente perdia competitividade e, muitas vezes, acabava saindo do setor.
O novo cenário da pecuária nacional
Nos últimos anos, porém, a realidade da pecuária começou a mudar.
Com a terra cada vez mais cara, a monetização desse ativo ficou cada vez mais complexa. Os custos de produção aumentaram. A competição pelo uso da terra se intensificou com o avanço da agricultura. Além disso, o acesso à informação tornou mais evidente a diferença de desempenho entre fazendas.
Hoje, duas propriedades com tamanho semelhante, na mesma região e enfrentando as mesmas condições de mercado podem apresentar resultados econômicos completamente diferentes.
- A diferença raramente está apenas na genética ou na pastagem.
- Cada vez mais, ela está na gestão.
Os pecuaristas mais rentáveis deixaram de olhar apenas para os aspectos operacionais e passaram a administrar a fazenda como uma empresa. Conhecem seus indicadores, acompanham margens, planejam investimentos, analisam riscos e tomam decisões baseadas em dados.
A principal diferença entre agricultores e pecuaristas talvez não esteja na capacidade de gestão, mas no momento histórico em que cada atividade foi obrigada a desenvolvê-la.
O agricultor aprendeu essa lição décadas atrás. Agora chegou a vez da pecuária.