24/09/2026

Quando os números pedem uma mudança: por que a Fazenda Córrego Fundo deixou a genética para focar na recria e engorda de fêmeas

Henrique Possebon, Coordenador Comercial Inttegra

Durante muitos anos, a Fazenda Córrego Fundo, localizada em Abaeté, Minas Gerais, teve sua atividade pecuária direcionada para a produção de genética Nelore. O modelo tinha como um dos principais objetivos produzir tourinhos aptos à reprodução aos 24 meses, além de comercializar fêmeas vazias e animais que não permaneciam no programa de seleção. É uma atividade que exige investimento constante em genética, reprodução, nutrição, avaliação dos animais e controles genealógicos, ponderais e morfológicos.

Produzir genética, entretanto, não significa necessariamente produzir rentabilidade. Foi justamente essa diferença que começou a ficar cada vez mais evidente nos números da Córrego Fundo.

Durante aproximadamente dez anos, diferentes ajustes de manejo e decisões técnicas foram realizados na tentativa de melhorar o desempenho do sistema. Segundo o produtor, houve evolução em alguns custos, mas os resultados econômicos permaneceram distantes daqueles observados nas fazendas mais rentáveis. Ao mesmo tempo, indicadores como ganho médio de peso, reprodução e lotação continuavam limitando a capacidade de remunerar adequamente terra e rebanho.

Até que chegou um momento em que a pergunta deixou de ser apenas “o que podemos melhorar dentro desse sistema?” e passou a ser outra:

“Esse ainda é o melhor sistema para esta fazenda?”

Vender uma arroba cara não era suficiente

Um dos pontos mais interessantes do caso da Córrego Fundo é que o problema não estava simplesmente na capacidade de comercializar bem os animais.

Na Safra 2023/2024, por exemplo, o valor médio de venda da fazenda foi de R$ 448,01/@, colocando a propriedade entre as primeiras posições do benchmarking nesse indicador. Mesmo assim, o resultado gerencial global ficou negativo em R$ 353,58/ha, o retorno sobre o capital de trabalho foi de -7,8% ao ano e a rentabilidade sobre o capital total ficou em -0,7% ao ano.

Na safra seguinte, a situação ficou ainda mais evidente. Em 2024/2025, o resultado gerencial global chegou a -R$ 587,48/ha, o resultado produtivo pecuário ficou em -R$ 468,49/ha, o retorno sobre o capital de trabalho caiu para -14,1% ao ano e o retorno sobre o investimento operacional ficou em -8,9% ao ano.

Ou seja: havia valor no produto vendido, mas esse valor não estava sendo suficiente para remunerar toda a estrutura necessária para produzi-lo. Esse talvez seja um dos aprendizados mais importantes desse caso.

Preço de venda é importante. Mas preço de venda sozinho não define rentabilidade.

Uma atividade precisa conseguir transformar terra, animais, mão de obra, estrutura e capital investido em resultado.

Quando a escala começa a limitar o modelo

Produção de genética possui uma característica importante: existe uma estrutura técnica e operacional que precisa ser mantida independentemente de a fazenda trabalhar com 300, 500 ou milhares de matrizes. Há investimentos em reprodução, seleção, registros, acompanhamento dos animais, nutrição diferenciada, avaliações e mão de obra. Quanto menor a escala, mais difícil pode ser diluir parte dessa estrutura.

Na Córrego Fundo, o próprio diagnóstico do produtor apontou três fatores importantes: um rebanho com menos de 500 matrizes, ganho médio de peso abaixo de 400 gramas por dia e lotação inferior a 1,5 UA/ha.

Os números da Safra 2024/2025 ajudam a dimensionar essa situação. O GMD global ficou em 0,380 kg/dia, enquanto a lotação ajustada foi de 1,02 UA/ha. A produção global alcançou 6 arrobas por hectare.

Nenhum desses indicadores deve ser analisado isoladamente. Uma lotação menor, por exemplo, não significa necessariamente baixa eficiência. Da mesma forma, um GMD abaixo de determinada referência não transforma automaticamente um sistema em inviável.

O problema aparece quando vários indicadores, ao mesmo tempo, começam a mostrar que os recursos disponíveis não estão gerando retorno suficiente. Era esse conjunto que precisava ser analisado.

O tamanho da área também influencia a escolha do sistema

Existe ainda outra questão estratégica. Na cria, uma parcela relevante da capacidade de suporte da fazenda é ocupada por matrizes adultas. Essas vacas precisam permanecer durante todo o ano na propriedade, utilizando pastagem, suplementação, mão de obra e capital para entregar, principalmente, um produto: o bezerro.

Quando a área disponível é limitada, a eficiência com que cada hectare é utilizado passa a ter um peso ainda maior na decisão. Isso não significa que recria e engorda seja sempre mais eficiente que cria, nem que uma fazenda menor não possa ser extremamente rentável produzindo genética. Significa apenas que o sistema precisa ser compatível com os recursos disponíveis e com a capacidade da fazenda de executá-lo em escala suficiente.

Para a realidade da Córrego Fundo, a análise indicou que concentrar animais em uma atividade na qual uma parcela maior do rebanho esteja efetivamente ganhando peso poderia ser uma alternativa mais adequada. Foi daí que surgiu a decisão de migrar para a recria e terminação de fêmeas.

Uma mudança que começou a aparecer no resultado financeiro

A Safra 2025/2026 representa um ponto de mudança nessa história. O resultado produtivo, que havia sido negativo na safra anterior, voltou ao campo positivo. O resultado por arroba passou de aproximadamente -R$ 80/@ para +R$ 109/@, enquanto a margem da operação saiu de cerca de -31% para +17%. O resultado da operação sem efeito de mercado passou de aproximadamente -R$ 608/ha para +R$ 438/ha.

Ao mesmo tempo, o faturamento pecuário aumentou, enquanto o desembolso total diminuiu. O custeio também recuou, assim como o custo mensal por cabeça. É uma mudança importante porque mostra que a recuperação financeira não dependeu simplesmente de colocar mais dinheiro dentro da operação.

Produzir menos arrobas e ganhar mais dinheiro também ensina

Talvez este seja um dos pontos mais importantes da análise. Na Safra 2025/2026, alguns indicadores produtivos não melhoraram. O GMD global caiu em relação à safra anterior, assim como a produtividade em arrobas por hectare e o desfrute. Mesmo assim, o resultado financeiro melhorou de maneira expressiva.

Isso mostra por que gestão pecuária não pode ser baseada em um único indicador. Produzir mais arrobas é importante. Melhorar GMD é importante. Aumentar lotação pode ser importante. Mas o objetivo econômico da atividade não é conquistar isoladamente o maior GMD, a maior lotação ou a maior produtividade física.

O objetivo é transformar produção em resultado.

Uma fazenda pode apresentar bons números zootécnicos e não remunerar adequadamente o capital. Outra pode vender animais por valores elevados e ainda assim ter resultado negativo. É a integração entre produção, custos, preço, giro e utilização do capital que determina o desempenho econômico.

Por que a recria e engorda de fêmeas entrou na estratégia

O novo modelo pensado para a Córrego Fundo possui algumas características que dialogam diretamente com os problemas identificados no sistema anterior. O ciclo é mais simples. A quantidade de etapas reprodutivas diminui. A necessidade de manter estrutura específica para produção de genética é reduzida. E uma parcela maior dos animais presentes na fazenda passa a ter como objetivo direto ganhar peso para comercialização.

Além disso, há disponibilidade regional de animais desmamados para compra, permitindo que a propriedade utilize a estrutura que já possui e concentre seu trabalho em uma recria intensiva a pasto, mantendo a produção de silagem de forrageiras tropicais como estratégia para atravessar a seca.

Em uma área limitada, o ganho potencial está justamente em aumentar a velocidade com que o hectare transforma alimento em quilos comercializáveis e o capital investido retorna para a operação. Mas isso cria novos desafios.

Comprar bem passa a ser tão importante quanto vender bem. O GMD assume ainda mais relevância. Lotação, custo da diária, custo por arroba produzida, desembolso por cabeça/mês e produtividade por hectare precisam ser acompanhados de perto. E, principalmente, será necessário observar resultado por hectare e retorno sobre o capital de trabalho. Porque trocar de sistema sem trocar a forma de medir apenas muda o problema de lugar.

Os indicadores também precisam mudar com o negócio

Na produção de genética, grande parte da atenção estava concentrada em fertilidade, desmama, avaliação dos animais, qualidade genética e valor de comercialização. Na recria e engorda, a lógica econômica muda. A fazenda passa a depender cada vez mais da relação entre preço de compra, desempenho durante a permanência na propriedade, custo para produzir cada quilo e preço de venda.

Por isso, alguns indicadores tendem a ganhar protagonismo: GMD global, produtividade em arrobas por hectare, lotação, desembolso por cabeça/mês, custo e desembolso por arroba produzida, ágio de compra, giro dos animais, margem sobre a venda, resultado por hectare e retorno sobre o capital de trabalho.

Nenhum deles, sozinho, responderá se a mudança deu certo. Será a combinação entre eles que mostrará se a fazenda conseguiu colocar mais capital em movimento, produzir mais valor dentro da área disponível e remunerar melhor os ativos.

Talvez a melhor decisão não seja melhorar o sistema atual

Existe uma tendência natural dentro das propriedades rurais de tentar melhorar aquilo que já é feito. Se a reprodução está ruim, busca-se melhorar a reprodução. Se o ganho de peso está baixo, muda-se a nutrição. Se o custo está elevado, procura-se cortar despesas. Tudo isso faz parte da gestão.

Mas existe uma pergunta anterior que poucas vezes é feita: Estamos tentando melhorar o sistema certo?

Na Fazenda Córrego Fundo, diferentes ajustes foram realizados durante anos. Chegou um momento, porém, em que os indicadores mostravam que os ativos terra e rebanho continuavam sem receber a remuneração esperada. A decisão mais importante, portanto, não foi encontrar outra tecnologia. Foi aceitar rever o modelo.

Conclusão

A história da Fazenda Córrego Fundo ainda não terminou. A recria e engorda de fêmeas está começando e serão necessárias novas safras para medir, com segurança, a rentabilidade recorrente do novo sistema.

Mas existe um aprendizado que os números já permitem tirar. Nas Safras 2023/2024 e 2024/2025, a propriedade apresentou dificuldades para transformar uma atividade tecnicamente exigente e animais valorizados em retorno econômico consistente. Na última safra, em meio ao início da transição, o resultado financeiro mudou de direção.

Mais importante que o número isolado foi a decisão que veio antes dele. A fazenda utilizou seus próprios indicadores para questionar uma estratégia construída ao longo de anos. Isso exige gestão, mas também exige disposição para mudar.

Nem sempre aumentar a rentabilidade significa produzir mais dentro do sistema atual. Em alguns casos, significa entender quais recursos a propriedade possui, onde estão suas limitações e qual atividade tem maior capacidade de transformar esses recursos em resultado.

Gestão baseada em números não serve apenas para mostrar se a fazenda foi bem ou mal. Ela deve ajudar o produtor a decidir qual fazenda deseja construir daqui para frente. E talvez esse seja o principal aprendizado da Córrego Fundo: os números não existem apenas para medir o negócio. Em determinados momentos, eles mostram que chegou a hora de mudar o próprio negócio.

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Sobre a Inttegra

A Inttegra surgiu da experiência prática de Antonio Chaker, que em 1997 percebeu que apenas anotar números não transformava fazendas. Entre 2002 e 2015, ele desenvolveu um método que une números, estratégia e pessoas. Em 2015, o Instituto foi oficializado com o objetivo de aplicar essa gestão integrada para gerar resultados sustentáveis e consistentes no agronegócio.

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