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Revista AG – O que o Benchmarking 2019/2020 mostrou com relação à atividade de cria no Brasil?

Antonio Chaker – Dá pra gente ser bastante objetivo neste aspecto. O primeiro ponto é que o produto final da atividade de cria é o bezerro. As métricas que medem a eficiência dos bezerros são algumas. A primeira, usada muito tempo, era a chamada taxa de desmame, que leva em consideração os animais que desmamaram e entraram em monta. E fica muito claro que as fazendas mais rentáveis têm taxas de desmame na casa de 75%.

Porém, esse percentual leva em consideração outros dois índices: o da fertilidade do rebanho e o da perda entre os animais que emprenharam e os que realmente foram capazes de desmamar o bezerro. Então, para ter uma boa taxa de desmame, ou seja, acima de 75%, a fazenda precisa ter, por exemplo, 85% de fertilidade e uma perda máxima, composta pela abortos e pelos animais que morrem após o nascimento, que não faça sob hipótese alguma, com que esses 85% virem menos que 75%. As melhores fazendas têm essa diferença abaixo de 7% entre o que deu prenha e o que desmamou. Mas podemos ir além.  Mais do que a taxa de desmame, a estatística mostra que existe outro indicador: o de quilos de bezerros desmamados por matriz. No último levantamento, as fazendas que apresentaram prejuízo desmamaram 119 quilos de bezerro por vaca. As top rentáveis desmamaram 163 quilos de bezerro por vaca.

Então, o foco do produtor não está apenas na taxa de desmame, mas sim em desmamar animais com peso superior a 160 quilos por vaca. Então, preciso ter pesos ao desmame muito altos, superiores a 200 quilos com uma taxa de desmame alta também, superior a 75% . Então, a cria pode ser uma atividade super-rentável. E, quando digo isso, falo em uma taxa interna de retorno na casa de 1,8% ao mês, referindo-me aos 30% mais rentáveis. Os 10% mais rentáveis superam retorno de 2,5%/mês. Então é um baita dum negócio, mas desde que ele cumpra o desmame, que é o produto final, não só o indivíduo, mas a relação entre peso dos bezerros com o total de matrizes expostas. As melhores propriedades produzem 400g de bezerro para cada quilo de matriz que entrou em monta.

Revista AG - As propriedades que não apresentaram os índices mínimos para serem rentáveis têm características em comum?

Chaker – O principal que deixam a desejar é na estratégia nutricional, que representa mais da metade dos problemas. São questões que dizem respeito essencialmente ao pasto. Para obter bons índices reprodutivos, preciso, essencialmente, promover ganhos de condição corporal às matrizes durante a monta. Também tenho de ter fertilidade e evitar perdas de animais antes e após os nascimentos. A fertilidade vem do ganho de condição corporal, premissa atendida pela estratégia forrageira bem definida, que permitirá à vaca parir bem e ainda continuar ganhando. Se tenho matrizes preparadas, preciso de um bom protocolo reprodutivo para inseminação ou de touros e de uma rotina técnica de manejo diária muito bem estabelecida.

Depois, tenho de ter um manejo sanitário do rebanho impecável, pois a perda pré-parto, via de regra, vem de duas grandes fontes: ou de agente patogênico (está doente, tem problemas de brucelose, leptospirose, BVR, BVD etc) ou de estresse. Esse estresse pode vir do manejo, com gritos e pancadas, do curral, da falta de água (animal passou sede) ou da falta de comida (animal passou fome). Então, as perdas são concentradas em elementos de manejo que geram estresse e nos problemas de sanidade, diretamente ligados à perda pré-parto. Então, atuo na fertilidade, atuo na perda pré-parto e tenho de atuar, também, para diminuir a mortalidade de bezerro, que é manejo de maternidade principalmente: a cura do umbigo, o colostro, aqueles tratos iniciais que determinam a saúde do bezerro. Se eu não tenho um manejo de maternidade bem feito, as perdas são muito grandes, pois o bezerro é tão sensível tanto aos agentes patogênicos quanto ao predador. Aí vem o último ponto, que é o peso do bezerro, intimamente ligado à nutrição que ele recebeu, à nutrição da mãe e à genética.

Esse conceito todo passa, então, por nutrição, reprodução e genética. No caso da cria, a precocidade é muito importante porque eu consigo ter uma arquitetura de rebanho melhor. Se eu tenho fêmea que entra em monta muito tarde, preciso tê-la na propriedade por muito tempo até que comece produzir. A minha fábrica precisa ser mais eficiente.

Revista AG – Quais as características marcantes entre os empreendimentos líderes em produtividade e rentabilidade?

Chaker – As fazendas que obtiveram os melhores índices trabalham com pastagens de excelente qualidade e, invariavelmente, com suplementação adequada à exigência nutricional dos animais. Elas desenharam uma estratégia nutricional específica para cada categoria de matriz. As novilhas, ou nulíparas, têm uma estratégia específica. As primíparas, obrigatoriamente, têm uma suplementação mais alta quando a pastagem não é perfeita, pois são as mais exigentes. Depois, temos as pluríparas, que são as matrizes. Então, o desenho nutricional complementa o pasto de acordo com as exigências de cada uma. Ver o rebanho de cria através das suas diferentes categorias é fundamental. Uma novilha nulípiara, que está crescendo, tem exigências diferentes da primípara, que está crescendo, gestando energia e é a primeira a se manifestar na falta de comida. Essas, por sua vez, demandam alimentação diferente do que as vacas, que estão só gestando.

Revista AG – Atingir este patamar requer grande capacidade financeira para investimento?

Chaker – Requer investimento, mas, principalmente, conhecimento. Mais do que dinheiro. Se eu não tenho uma quantidade de matrizes que cabe na fazenda, posso trabalhar com menos gado e com maior produtividade. Então, existe um viés cognitivo que concentra o raciocínio na quantidade de matrizes enquanto, na verdade, deveria ser na quantidade de bezerros desmamados na propriedade ou na taxa de desmame. Então, normalmente, quando a fazenda tem problema de pasto é porque ela tem mais gado do que caberia e não tem estratégia nutricional. Você começa ajustando o que cabe na fazenda com o que, de fato, ela tem. Por isso, não é só uma questão financeira, mas de conhecimento, de ajuste forrageiro, de estratégia de entressafra, especialmente a cria, atividade que mais demanda conhecimento, da monta, do nascimento, do desmame, da genética.

Revista AG – Como a pesquisa compara a rentabilidade da cria com relação à engorda?

Chaker - As fazendas muito eficientes na cria nunca perderam para as de engorda, mesmo quando o cenário da reposição não era tão favorável. A engorda demanda mais dinheiro do que a cria. Enquanto as fazendas de engorda gastam R$ 80 por cabeça ao mês, a cria gasta menos de R$ 40/cab/mês, porque tenho um bezerro que precisa de níveis menores de suplementação. Tenho um processo que não demanda tanto insumo, mas conhecimento. Por isso, a cria sempre foi rentável para os profissionais, independente da fase, e, agora, naturalmente, ela se destaca porque está num momento muito bom – que não vai durar para sempre, como nunca durou. Quem é profissional não é agora que está ganhando dinheiro com a cria. E quem é ruim talvez ganhe alguma coisa agora, mas quando o mercado voltar à normalidade, ele voltará a perder porque uma empresa pecuária, hoje, demanda excelência operacional, especialmente a cria, que é o ciclo mais longo.

Revista AG – Qual o perfil dos pecuaristas de cria que lideram a pesquisa?

Chaker –  Eu brinco que para ser craque na cria tem que ter o espírito do boiadeiro, do pecuarista, do vaqueiro. Tem que ter a sensibilidade de ler o que a vaca está pedindo para ele. Os melhores índices são daquele criador apaixonado que tem um capricho extremo com o bezerro, com a novilha, com as matrizes, com o pasto, o gado é manso, não apanha. A cria é uma atividade que deve ser encarada com todos os seus detalhes, muito profissionalismo e amor. E, sem dúvida requer mais conhecimento do que dinheiro, que vem da sensibilidade e do conhecimento técnico. É uma fábrica, e quem trabalha com genética tem um insumo que dura para sempre.

Revista AG – Qual o espaço para avanço da cria no Brasil?

Chaker – A cria é onde, atualmente, há mais espaço para avanço no Brasil, que desmama menos de 100 quilos de bezerro por vaca enquanto o parâmetro de uma desmama profissional está em 160 quilos. Na verdade, temos de métrica informal de 88 quilos de bezerro por matriz no instituto. Ou seja, para a cria brasileira atingir um patamar profissional, levando em conta a quantidade de matriz por bezerro desmamado, precisa dobrar sua produtividade.

Revista AG – Comparando a última pesquisa com as anteriores, nota-se alguma evolução?

Chaker – Sim. As melhores fazendas aumentam, num Brenchmarking Médio, próximo a 7 quilos de bezerros desmamados por vaca exposta/ano desde o início da pesquisa. É uma evolução gigantesca. Enquanto a média não muda muito, os melhores evoluem. E os piores não ganham dinheiro e saem do sistema.

Revista AG – Com relação à safra 2020/2021, você constata alguma mudança com relação ao comportamento do criador frente à escassez de gado para reposição?

Chaker - O valor do bezerro trouxe uma mudança no comportamento do criador. A cria está recebendo mais investimento, fêmeas que seriam abatidas estão ficando nas propriedades para reprodução, sistemas estão ampliando o ciclo completo. Claro que, estrategicamente, é uma decisão que precisa ser construída em mais longo prazo, mas se, dúvida, o ciclo pecuário é soberano e vigente. O que não significa que é uma coisa maravilhosa e boa, pois é uma decisão que tinha de ser tomada antes.

Revista AG – Como você acha que a escassez da reposição pode afetar ocaixa dos confinamentos?

Chaker – Nos confinamentos profissionais mesmo, o negócio da recria e da terminação não ficou ruim. Quando o bezerro custava perto de R$ 2 mil, o boi valia perto de R$ 4 mil ou R$ 5 mil. Hoje, é possível, mesmo com a arroba do bezerro em alta, obter uma taxa de retorno de 20%. É outro viés cognitivo dizer que recria e engorda não está dando lucro porque nós temos um patamar de arroba de R$ 300. Então, o boi vale R$ 6 mil. A mesma distância de R$ 3 mil que eu tinha entre um boi gordo e um bezerro permanece. E quem não ganhava dinheiro antes não ganhará agora porque a questão da engorda está em produzir uma arroba barata. As pessoas estão olhando somente para uma parte da conta e não para os dois lados.

Revista AG – E como o custo dos grãos pode interferir neste cenário?

Chaker – O uso e o custo dos grãos têm mais a ver com a estratégia nutricional adotada do que com o custo do produto propriamente dito. Não vou conseguir baixar esse preço, são commodities. Mas posso ter uma estratégia de adubação de pastagens, de diminuir o uso de grãos, de trabalhar com suplementações mais leves, preciso repensar meu processo. Na dificuldade é que vem a criatividade.

Fonte: Revista AG

Link: https://www.edcentaurus.com.br/deguste/2021_04/ag/index.html#page/1

AUTORA

Thaise Teixeira 
Editora da Revista AG
Jornalista

23 de Abril de 2021

663

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